sexta-feira, 13 de novembro de 2009

MISS PERNAMBUCO 1959









































































































































Entrevista com Sônia Maria Campos, primeira representante brasileira no Miss Mundo

Em 1958 o Brasil fazia a sua estréia no Miss Mundo com uma pernambucana de beleza tipicamente brasileira, 100% exportação. Vice de Adalgisa Colombo no concurso Miss Brasil, sempre esteve entre as favoritas do público carioca que lotou o Maracanãzinho. Foi para Londres disputar o Miss Mundo, onde acabou classificada entre as 7 mulheres mais lindas do planeta. Cinquenta anos após os seus dias de glória, ainda bela, esse mulher fascinante recebeu em sua residência alguns dos atuais organizadores do concurso Miss Mundo Brasil. Generosa, emprestou seu álbum com fotos da época que serão vistas por muitos pela primeira vez. Conheça a história da mulher que iniciou uma tradição: Sônia Maria Campos, nosso primeira Miss Mundo Brasil.

MMB - A Revista O CRUZEIRO via a Sra. como a grande concorrente de Adalgisa Colombo em 1958. Em uma das reportagens foi comentado o seguinte: "Sônia Maria Campos, Miss Pernambuco, dona de grandes predicados físicos e que ainda por cima, como se não bastasse tal glória, lê Shakespeare no original!". É verdade??

Sônia - Sim, é verdade. Na época eu estudava a gramática e literatura inglesa a fundo, posso dizer que tinha familiaridade com o idioma. Apesar da falta de prática, ainda me comunico muito bem em inglês.


MMB - Em que cidade a Sra. nasceu e como foi a sua infância em Pernambuco?

Sônia - Nasci em Recife, a linda capital pernambucana. A minha infância foi normal, como de toda garota que tem a sorte de ter uma família amorosa. Estudei sempre no colégio de freiras, elas eram muito rígidas e me ensinaram a ser disciplinada ao máximo. Também estudava francês. Apesar de ter dedicado boa parte da minha juventude aos estudos, não posso me queixar. A educação escolar que recebi certamente foi base da pessoa que me tornei.

MMB - O que pode nos contar sobre o Miss Mundo 1958?

Sônia - Atualmente confesso que estou desligada e sei muito pouco do que acontece nesse mundo dos concursos de misses, mas na época em que participei tudo era absolutamente glorioso! Era como fosse um sonho, tudo era fantasia, tudo era lindo, maravilhoso, nós éramos muito paparicadas. Tínhamos uma acompanhante, não podíamos ir para lugar nenhum sem ela, os programas eram longos, visitamos diversos lugares em Londres, inclusive estúdios de cinema ingleses, onde tive a honra de conhecer alguns dos grandes atores daquela época. Me lembro de tudo com muito carinho, sem uma reclamação ou má recordação. O Miss Mundo era simplesmente um sonho para qualquer jovem que dele participasse, vencendo ou não.

MMB - Quando participou do Miss Mundo sabia que era a primeira brasileira a fazê-lo?

Sônia - Sabia sim. Logo após o encerramento do Miss Brasil, onde fui classificada em segundo lugar, me falaram que eu iria para o Miss Mundo. Me disseram: “Você tem uma beleza tipicamente brasileira que fará muito sucesso na Europa. Será a primeira brasileira a concorrer no Miss Mundo”. E acho que me sai bem, fui uma das finalistas. Independente de qualquer resultado, só a idéia de viajar para Londres era um sonho! Foi o melhor prêmio que eu poderia ter ganho.

MMB - Apesar de ter sido a nossa representante no Miss Mundo, não havia um título de Miss Mundo Brasil naqueles tempos. Dava para se sentir uma "Miss Brasil" em solo brasileiro, ou somente quando participou do Miss Mundo em Londres?

Sônia - Claro que me sentia uma Miss Brasil! No momento em que eu soube que representaria o Brasil no Miss Mundo me senti uma Miss Brasil, tal e qual o fui. Só senti falta de ter recebido uma faixa e uma coroa, mas tudo bem (risos)! Foi maravilhoso e sim, me senti a Miss Brasil de 1958 para o Miss Mundo, com muito orgulho.

MMB - De quem se lembra no Miss Mundo 1958?

Sônia - Apesar de ter perdido o contato com as candidatas, me lembro muito bem da Miss França. Éramos amigas e ela ficou em segundo lugar. Uma pessoa maravilhosa. (Claudine Auger, Miss França 1958, tornou-se atriz de sucesso nos anos 1960).

MMB - A Sra. foi uma das finalistas do Miss Mundo 1958. O que faltou para chegar um pouco mais longe e ganhar o título?


Sônia - Sugiro que você faça essa pergunta ao corpo de jurados (risos), eu mesma não sei te dizer o que houve. Fiquei feliz por ter sido uma das finalistas, mas acredito que fiz tudo muito bem feito, e poderia até ter vencido, porque não?

MMB - O que pode nos contar sobre os bastidores do Miss Brasil 1958? Tinha torcida de Pernambuco presente no Maracanãzinho?

Sônia - Tinha sim, bastante, aliás, eu fiquei encantada com o Maracanãzinho, porque realmente eu não sei de onde saiu tanta gente de Pernambuco (risos). Fiquei impressionada com a torcida que existia por mim e sou grata por aqueles momentos até hoje. É uma emoção sem comparação.

MMB - Qual a sua melhor lembrança de 1958?

Sônia - Ainda tenho vivo em minha mente o desfile no Maracanãzinho. Eram milhares de pessoas aplaudindo, me lembro até de alguns rostos, das pessoas sorrindo, foi absolutamente marcante.

MMB - O que aconteceu com a Sra. após o concurso?

Sônia - Depois da fase de miss, eu vivi uma vida normal em Recife. Durante algum tempo trabalhei em uma companhia aérea, a “Aerolineas Argentina”. Eu era recepcionista, e tão logo, conheci meu marido, que era da Aeronáutica. Nós nos casamos, tivemos 5 filhos, netos, fui dona de casa, e acho que desempenhei muito bem meu papel de mulher e de mãe.

MMB - Como é a sua vida atualmente?

Sônia - Olha, eu me tornei paulista de coração (risos), não sou de nascença e também amo Pernambuco, mas adoro São Paulo! Hoje eu sou corretora de imóveis, trabalho todos os dias, moro sozinha, meus filhos todos já se casaram, eu fiquei viúva. Precisava de atividades, por isso me ocupo sempre com algo, seja com meu trabalho como corretora, ou então, pintando. Sou artista plástica, tenho vários quadros e já realizei várias exposições. Sou retratista, já pintei a Vera Fischer e até a mim mesma.

MMB - O que a Sra. acha de hoje o Miss Mundo ter um concurso exclusivo para a eleição da representante do Brasil?

Sônia - Acho isso maravilhoso, e nada melhor que o Brasil para ter esse poderio de eleger pessoas lindas e talentosas. Gostaria muito que um dia o Miss Mundo fosse realizado no Brasil, acredito que temos toda a infra-estrutura para a realização de um grande evento como este.

MMB - E como a Sra. se preparou para o concurso?

Sônia - Para o Miss Mundo preparamos um guarda-roupa de acordo com a estação em Londres na época, meu traje típico, coisas do tipo. Treinei muito desfile para poder fazer bonito em Londres e me dediquei ainda mais ao estudo do inglês.

MMB - A Senhora mantém alguma amizade com suas colegas de concurso até hoje?

Sônia - É uma pena, mas infelizmente eu não tenho nem noção de onde estão e como estão hoje em dia. Me dediquei plenamente à minha família após o concurso.

MMB - Qual foi a melhor lembrança de Recife?

Sônia - De Recife sempre tenho boas lembranças. Os títulos de beleza me fizeram conhecida, não podia sair de casa sem ser reconhecida onde quer que eu fosse. Mas era maravilhoso receber o carinho e admiração das pessoas. Tinha muitos amigos, logo que casei-me, antes de vir para São Paulo, morei em Boa Viagem, com vista para o mar. Me lembro dos banhos naquelas águas mornas, lembrar e falar de Recife é sempre muito bom.

MMB - Se a Senhora pudesse voltar 50 anos no tempo, o que mudaria na sua trajetória como representante brasileira no concurso Miss Mundo? O que a Sra. deixou de fazer que poderia ter feito para alavancar sua vitória?

Sônia - Eu na época não tinha muita experiência em passarela, hoje em dia as garotas entram nos concursos já com experiência como modelo. Eu não tinha experiência nenhuma, mas o que eu vivi e aprendi, minha dedicação e até meu desempenho, sinceramente, se pudesse voltar no tempo, faria tudo como fiz. Não me arrependo de nada, foi maravilhoso.

MMB - A Senhora acompanhou a trajetória de alguma outra representante brasileira no Miss Mundo ou em qualquer outro concurso?

Sônia - Não. Eu lia algo a respeito dos concursos na revista Cruzeiro que era importantíssima naquela época, era a imprensa mais importante, já que a televisão ainda era algo novo e bastante restrito.

MMB - E como a Senhora chegou até as passarelas? Como foi o começo de tudo?

Sônia - Eu tinha um amigo em Recife, eu acho que ele ainda é vivo, é o jornalista Alex José de Sousa Alencar. Quando eu fui apresentada à ele, me disse: “Você vai participar do concurso de Miss Pernambuco”, e eu respondi: “Eu (risos), você tem certeza?”. Acabei indo pela experiência, sem a menor expectativa de obter destaque ou vencer. Quis vencer quando soube que o Miss Brasil seria realizado no Rio de Janeiro (risos), que eu não conhecia até então. Venci e conheci um mundo novo, foi muito bom sair da rotina e descobrir tantas coisas novas.

MMB - Quais eram os seus sonhos na época?

Sônia - Serei sincera: era o sonho da maior parte das moças daquela época, ou seja, viver uma vida tranquila, casar, ter filhos, ter minha própria família. Posso dizer que realizei meus sonhos.

MMB - E como uma menina de colégio interno, estudante de inglês e francês, como sua família encarou a Sra. desapontar para as passarelas?

Sônia - Antigamente era diferente, meu pai era falecido e meu tio me acompanhava sempre, porque aonde nossa família ia, ele ia junto, e isso dava uma segurança muito grande para a nossa família. A minha mãe não foi comigo para a Europa porque ela tinha medo de avião (risos), então, o meu tio foi comigo, e eu só saia acompanhada por eles. Eles não se incomodaram porque apesar de ser algo fora do corriqueiro, não era escandaloso, muito pelo contrário, o Miss Brasil era muito bem organizado e bem visto pela sociedade em geral.

MMB - Na época o que chamou muito atenção na sua viagem foi o seu guarda-roupa. O que você pode comentar conosco sobre o guarda-roupa que a Sra. levou para Londres?

Sônia - Tinha um costureiro, o Marcílio Campos, que fez minhas roupas. Era um guarda-roupa realmente muito bonito e cheio de opções. Saí do calor e apesar de que não era época de muito frio em Londres, era outono, a temperatura estava abaixo do normal, o que eu não estava acostumada. Havia roupas de inverno, tudo muito elegante e de bom gosto. Meu guarda-roupa era sempre muito elogiado.

MMB - Que mensagem a Sra. deixa as candidatas que concorrerão ao título de Miss Mundo Brasil 50 anós após os seus dias de glória?

Sônia - Que aproveitem cada minuto dessa experiência maravilhosa, que guardem tudo o que puderem guardar para que um dia possam mostrar com orgulho as fotos e relatos para seus filhos e netos. Mais do que resultado, é a experiência que realmente vale, as pessoas que elas irão conhecer, os lugares maravilhosos que irão visitar. Desejo à vencedora muita sorte e que possa trazer para o Brasil mais um título de Miss Mundo.


GALERIA DE FOTOS:



Acima, Sônia Maria Campos hoje; abaixo, alguns dos trabalhos como artista plástica: Vera Fischer (direita) foi imortalizada por Sônia Maria Campos.



Desfilando em Recife em 1958








No Miss Brasil, à direita de Adalgisa Colombo:
segundo lugar com gosto de vitória


No Miss Mundo: Alemanha (semifinalista), Israel, Brasil (finalista), Dinamarca (terceiro lugar);
África do Sul (eleita Miss Mundo 1958), o ator Kenneth More e Miss Holanda (finalista).




* * * *

Sônia Maria Campos foi entrevistada por Luís Ricardo Mayer, um dos diretores da MMB Produções e Eventos Ltda., Carla Tavares, Gerente de Licenças e João Ricardo Dias, do veículo "Miss Brasil on Board";
Prguntas elaboradas por Henrique Fontes e João Ricardo Dias;
Fotos históricas cortesia de Sônia Maria Campos e Pageantopolis.
Fotos de Juliana Medina.

Sônia Maria Campos será homenageada durante a edição comemorativa de 50 anos do Miss Mundo Brasil, em julho.
Agradecemos a esta eterna Miss Brasil pela entrevista e belíssimas fotos!

Nenhum comentário:

Seguidores